Ergonomia: cuidados com o dia-a-dia do trabalhador
Daniel Limas

Vou lhe fazer uma proposta. Procure se lembrar como é o seu ambiente de trabalho. Reflita sobre como você se sente com relação às máquinas, instrumentos, armários, cadeiras, mesa, cadeira e sua própria sala? Outra pergunta: já sentiu dores nas costas, tendinites, dores por repetir inúmeras vezes o mesmo movimento, teve que caminhar muito para pegar uma folha impressa ou algo no armário, sentiu muito frio ou calor dentro do seu ambiente de trabalho? Saiba que tudo isso, ou seja, sua relação com o ambiente de trabalho é objeto de estudo da Ergonomia.

Se algo nessa relação não vai bem, além de trazer sofrimento aos trabalhadores, saiba que a sua empresa pode ser muito prejudicada. Vou enumerar algumas perdas: produtividade dos funcionários, absenteísmo, horas extras desnecessárias, gastos com saúde, processos trabalhistas e, até mesmo, a relação com seus investidores pode ser abalada. Ao contrário, investir em ergonomia reverte toda esta situação, em curto prazo transforma os gastos em ganhos e, principalmente, faz com que sua equipe de colaboradores trabalhe muito mais satisfeita.

Em síntese, a Ergonomia visa melhorar a adaptação das situações de trabalho aos trabalhadores para que eles se sintam bem nos seus locais de trabalho, para que haja o menor desgaste possível, preservando, assim, a sua saúde. “O objeto de estudo da Ergonomia é a atividade real dos trabalhadores, o que eles realmente fazem, como realizam suas tarefas, quais as dificuldades e estratégias para superá-las. Também é necessário analisar as condições do ambiente de trabalho e a organização do trabalho”, explica a ergonomista Gisele Mussi, que atua no Serviço de Saúde Ocupacional do Hospital das Clínicas – FMUSP.

Numa visão simplista, ergonomia é entendida apenas como o mobiliário de uma empresa. Mas um projeto de ergonomia bem feito deve analisar todos os itens que podem atrapalhar ou interferir direta ou indiretamente no trabalho das pessoas. Envolve até mesmo o funcionamento correto dos programas de informática, sem cliques desnecessários ou travamentos. “Além dos móveis, claro, não se deve esquecer de analisar detalhes como janelas que ofuscam, barulho ao redor, tela do computador que fica balançando ou com reflexo. Deve ser feito estudo se o ar condicionado está bem distribuído e se a iluminação está adequada, entre inúmeros detalhes”, enumera Mario Vidal, coordenador do Curso de Especialização Superior em Ergonomia COPPE/UFRJ (CESERG).

Para Mario, a ergonomia afeta ainda assuntos que são fundamentais dentro de qualquer organização: excelência produtiva e qualidade de gestão. “A empresa não consegue manter a qualidade de gestão e de produção sem pensar em ergonomia. É a ergonomia que mostra onde é possível melhorar. É ela que aponta os defeitos, os buracos”, comenta. E, por falar em defeitos, os problemas mais comuns que os ergonomistas encontram nas empresas diz respeito ao próprio arranjo físico das instalações. E isso diz respeito sobre a localização e o modo de alcançar os armários, mesas, telefones, impressoras etc. “Isso traduz diretamente a visão que o gestor tem”, aponta Mario.

“Ao desenvolver projetos de ergonomia para as empresas, o que eu mais vejo são produtos antigos, que trazem regulagens inadequadas e que mesmo ao permitir alguma regulagem, não altera a posição de trabalho”, relata Carlos Mendes, diretor Comercial da Voko, empresa que vende mobiliário e desenvolve projetos de ergonomia. Mas, infelizmente, o principal problema ainda é a relutância contra a mudança. “Ninguém gosta de mudanças. O ser humano sempre acha que vai mudar para pior”, complementa Carlos Mendes. Gisele Mussi também é da mesma opinião: “Há muita resistência por parte das empresas em aceitar sugestões relativas à organização do trabalho”, pontua.

Benefícios para as empresas

Qual empresa nesta época de crise financeira não quer cortar custos e gastos? Saiba que apesar do investimento inicial no projeto, a ergonomia contribui muito para reduzir despesas. A razão é simples: a empresa deixa de gastar com itens que nem tinha ideia. Mario enumera alguns exemplos relacionados que impactam diretamente em perda de tempo, ou seja, produtividade. “Imagine quanto tempo ao longo de um ano uma pessoa perde ao usar com uma impressora que não funciona direito, ao brigar com um computador que vive travando ou por ter que levantar para pegar folhas em um armário muito longe. Em um dia é pouco tempo. Mas num ano, é muito”, explica.

Mario trabalhou diretamente em alguns projetos de ergonomia e descobriu números impressionantes. Em um grande banco brasileiro, os gastos com faltas, dores, afastamentos por problemas de saúde passavam de R$ 24 milhões ao ano. “O afastamento de um funcionário gera dois custos: o de pagar para alguém ficar em casa e outro para substituí-lo. Há gastos também porque antes de ocorrer esse afastamento, houve declínio de produção desse funcionário”, explica Mario. Além disso, para que o funcionário dê conta do que não foi feito, ele passa a fazer horas extras, que gera mais custos para a organização.

Ainda segundo avaliação do ergonomista, em um projeto para uma empresa do vestuário, a cada dólar investido em ergonomia, a empresa ganhou outros cinco. Outros dados fornecidos por Mario apontam que, no Brasil, em 1996 e 1997, os prejuízos relacionados com os problemas de ergonomia somaram R$ 24 bilhões aos cofres da Previdência Social. Outro dado alarmante: segundo Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), no Brasil, o custo anual da ausência de ergonomia é de:

– Acidentes: US$ 34 bi (mais de 5% do PNB)
– Produtividade cessante: US$ 27 bi (em torno de 15% do PIB)
– Horas perdidas: 112.690,94
– Horas perdidas por trabalhador/ano: 5,33
– Prevalência de doenças ocupacionais: 9,64%

Vale lembrar também que o Ministério do Trabalho regulamenta esta área do conhecimento e que há punições para empresas que não cumprem estas normas. Há a NR 17 (Norma Regulamentadora) que exige que a empresa faça uma análise ergonômica para se avaliar as condições de trabalho e algumas outras que zelam pelo ambiente de trabalho. “Para quem não cumpre estas normas, o Ministério do Trabalho aplica sanções e multas, que podem chegar ao fechamento da empresa”, lembra Gisele Mussi.

Há uma nova e importante tendência relacionada com a Ergonomia. Este assunto já tem espaço garantido em páginas de diversos relatórios de sustentabilidade. “É por meio desses relatórios que as empresas conseguem captar mais facilmente recursos no exterior. Além disso, que investidor vai injetar dinheiro em uma organização com produtividade baixa e que ainda pode fechar por inúmeros problemas trabalhistas?”, esclarece Mario Vidal. Isso sem falar que a ergonomia é mais um argumento para que a empresa mantenha bons funcionários trabalhando.

Boa notícia para os trabalhadores e para as empresas também! Segundo nossos entrevistados, o mercado de ergonomia não para de crescer. Talvez por todos esses motivos associados, as empresas estão prestando mais atenção às condições de trabalho. “O número de empresas que pedem demonstrações é cada vez maior. Para se ter uma idéia deste mercado, a nossa empresa cresce cerca de 10% ao ano desde 2002. Em 2008, o crescimento foi de 20%, e para este ano, esperamos crescer o mesmo”, comemora Carlos Mendes.



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Porto Alegre, 09 de setembro de 2010